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de sucesso no mundo do samba

Foto Dr Nilson BrunoPela segunda vez no comando da Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro, NILSON BRUNO FILHO, 49 anos, espera aumentar a participação do órgão no combate ao racismo. Em 28 de agosto passado – para relembrar os 50 anos da marcha dos negros em Washington,   organizada pelo pastor Martin Luther King (1929-1968) -, ele organizou a 1ª Marcha da Defensoria Pública contra Desigualdade Racial, com presença de lideranças negras, no auditório da casa que dirige. Recentemente, atendendo a queixas de líderes negros, e em acordo com os organizadores da “Fashion Rio”, estabeleceu a cota de 10% para modelos afrodescendentes neste evento de moda a partir de 2014.

Filho de pais pobres, pagou seus estudos de Direito em universidade particular em Piedade,  e ingressou na Defensoria,  em dezembro de 1998, após prestar concurso de provas e  títulos para defensor. Doze anos depois, em eleição interna, foi o mais votado na disputa do cargo de chefe-geral da Defensoria Pública – Instituição que conta com 1012 defensores públicos, sendo 212 aposentados e 800 em atividade, cobrindo todo o estado. A partir daí, foi escolhido pelo governador Sérgio Cabral para o cargo por ser o mais votado da lista tríplice de candidatos encaminhada ao governo pela instituição.

Recentemente, após cumprir seu mandato de dois anos `a frente do órgão e promover as mudanças decorrentes dos seus compromissos assumidos,  foi reconduzido ao cargo por decisão dos  defensores que vibraram com sua gestão no organismo que defende na justiça aqueles que não dispõem de dinheiro para contratar advogados. Na primeira eleição,  obteve 369 votos. Na segunda eleição, conseguiu  489 votos, uma clara demonstração de aprovação dos novos rumos da Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro.

Nilton Bruno Filho-foto de Glaucia Melo - CópiaNilson Bruno disse que pretende aumentar a participação da Defensoria no combate às desigualdades raciais, que, segundo ele, emperram a vida da comunidade negra no Brasil. Uma de suas primeiras medidas, foi, ano passado, ter implementado a 1ª Marcha da Defensoria Pública contra Desigualdade Racial, realizada, no auditório da instituição, com a presença de convidados ilustres e lideranças negras.

Ele concedeu a seguinte entrevista ao nosso jornal.

 

ORIGENS

“Eu vim de família humilde, pé no chão, fui criado jogando bola nas ruas, com outros moleques, no subúrbio carioca, em Parada de Lucas, aprendendo o que acontece nas ruas. Os únicos jornalistas negros que conhecia até então eram Heraldo Pereira e Glória Maria. Mas hoje, percebi que existem outros. Isso é muito importante”.

FAMÍLIA/VIDA

“ Minha vida foi dura. Criado em Parada de Lucas, nunca neguei as minhas origens humildes e tenho muito orgulho dos meus amigos de infância e juventude. Todos honestos e trabalhadores. Continuam meus amigos até hoje. Meu  pai foi apontador e minha mãe merendeira. Passamos dias difíceis por falta de recursos, mas não desistimos de seguir o caminho do bem, da honestidade e da luta, apesar de todos os obstáculos”.

ÉTICA

“Bem, fui criado numa ética muita exigente de família pobre. A gente, como pobre, relutava em pedir uma xícara de café ao vizinho. Pedir ao vizinho? Os meus pais sempre se pautaram na ética e na moral. Eles não queriam perturbar o vizinho. Isso me marcou profundamente. Então, meus pais estavam sempre de olho nos nossos passos. Somos três irmãos. Eu sou o do meio.”

MUDANÇA

“Em 1984, ingressei no Corpo dos Fuzileiros Navais da Marinha. Minha mãe vibrou, pois, achava, com aquele emprego público, eu estaria encaminhado para a vida. Ela dizia : ‘com este emprego,  você está bem encaminhado’.”

DIREITO

“ Fiz o vestibular e fui aprovado em direito para a Universidade Gama Filho, em Piedade. Eu sempre pagava a universidade dois meses atrasado em virtude da dificuldade financeira. Logo em seguida  percebi que tinha que criar uma estratégia para não sair da faculdade. Foi quando me surgiu a ideia de solicitar o apoio da Chanceler da UGF e solicitava abatimento dos juros dos meses atrasados. Eu precisava juntar os salários de dois meses do meu emprego inicial na Bloch Editores para pagar a Gama Filho. Eu pensava naquela época: se eu parasse de estudar, nunca mais voltaria. Não posso esquecer da inestimável experiência de integrar o Coral da Universidade e ser contemplado com bolsa de 50% (cinquenta por cento) na mensalidade.

AUDIÊNCIA

“ Na primeira audiência como estagiário de Direito, no Fórum de Madureira, eu vi risinhos, das pessoas do entorno onde morava. Eles diziam: vai lá, pastor! Pastor era porque eu estava de terno e estava com o livro grosso do código civil de baixo do braço. Então, elas achavam que era uma bíblia (nenhum demérito em ser chamado de pastor. Nunca liguei para deboches). Então, eles não acreditavam em advogado negro. Na verdade, não estavam acostumados a ver negros naquela posição, sempre como criminosos, subalternos etc e eu compreendo isso muito bem”.

COLAR GRAU

“A minha colação de grau ocorreu no dia  15 de março de 1991, tendo eu conseguido terminar o curso de direito em dezembro de 1990, sem qualquer pendência. Foi um grande momento de superação e orgulho. Foi muito marcante. Uma das minhas grandes conquistas”

ESTRATÉGIA

“ Atuando como advogado, eu cheguei a ter mais 100 clientes. Então, adotei uma estratégia já que meus clientes, em geral, eram pobres, mas todos dignos. Honraram os seus compromissos financeiros pontualmente, garantindo os honorários advocatícios contratados. ‘O pobre tem uma ética interessante: honrar os compromissos sempre foi prioridade’. Recebia parcelado e sempre recebi tudo. Com isso, consegui me casar e ter o meu filho em 1994, onde fui morar na Rua Moreira Abreu, em Olaria, parte integrante do Complexo do Alemão.”

DESAFIO

“Em 2009 resolvi concorrer ao Cargo de Defensor Geral e mudar, com uma equipe comprometida para mudar os rumos institucionais visando a profissionalização da Administração da Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro pautado na transparência e em critérios objetivos para que a isonomia estivesse sempre presente em todos os atos da Administração.  No início de 2010, fui eleito para o Conselho Superior da Defensoria Pública e em 2010, fui o mais votado para o Cargo de  Defensor Público Geral, biênio 2011/2012, com 369 votos, seguido de outros candidatos, que tiveram os seguintes votos:  327, 324, 284 e fui reconduzido ao Cargo em novembro de 2012 para o biênio 2013/2014 com 489 votos, e nomeado para os dois mandatos pelo Governador Sergio Cabral”.

GESTÃO

“Quando assumi a administração da Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro pela primeira vez, em 2010, com a minha equipe,  implementamos um choque de gestão na instituição e hoje temos resultados comprovados com números nunca antes vistos na história institucional. Contratamos uma empresa de gestão estratégica através de rigoroso procedimento seletivo para nos auxiliar a avaliar o papel da Defensoria Pública sob o ponto de vista administrativo. Pensamos que a Defensoria poderia fazer mais com menos esforço e aumentando a qualidade para melhorar a qualidade de vida dos nossos assistidos. O resultado disso foi uma transformação melhorando a qualidade da Administração Pública com reconhecimento interno e externo.”

 

OBAMA

“ Minha eleição como chefe da  Defensoria Pública  foi igual a de Obama, pois, os brancos votaram em mim, acreditaram na minha proposta e no meu trabalho como chefe deles. A maioria  dos defensores são brancos e acreditaram duas vezes nas minhas propostas como chefe deles. Me sinto muito honrado com a confiança que eles me depositaram e eu honrei todos os meus compromissos. Sempre haverá resistência, faz parte do jogo democrático, mas os números e os resultados são inquestionáveis. Espero que os nossos sucessores façam melhor, sem perder de vista o que já foi feito, pois ainda há muito a fazer, apesar de tudo que foi feito.”

COTAS ESTADUAIS

“ Quando a lei de cotas estaduais do concurso foi sancionada no Rio, fomos o primeiro organismo a estabelecer cotas em nosso edital de concurso público. Aprovamos três negros por mérito, pois, eles eram tão bons que não precisamos acionar a cota. Isto porque, aqui, o candidato tem que ter a nota mínima de cinco para seguir em frente no concurso. Então, nossa estratégia,  aqui, é a seguinte, ou seja, valorizar a meritocracia,  o candidato tem que ter mérito.  No entanto, não podemos esquecer que existem negros com outra formação que merecem  a oportunidade de entrar por cotas raciais, que, não é nenhum demérito, é uma política temporária de inclusão, vale dizer, estamos no campo das ações afirmativas e correção das desigualdades raciais. Não podemos perder de vista que os negros foram escravizados por mais de 300 anos e a abolição da escravatura ocorreu há 126 anos. Portanto, há uma dívida da sociedade com esse segmento. Os negros foram proibidos de estudar, trabalhar mediante remuneração e nenhum segmento sofreu tamanha crueldade. Os negros não eram escravos: foram escravizados.”

MODELOS NEGROS

“O Leônidas Lopes, responsável pelo Grupo Palco dos Mil Sonhos e outros líderes negros me avisaram da situação dos eventos de moda onde nenhum (a) negro (a) desfilava. Ficamos conversando, aqui na Defensoria sobre o tema. Nesta ocasião, me lembro, o “Fashion Week”,  de São Paulo,  teve naquele ano como tema a cultura negra e não havia negros desfilando. Isso pareceu um escárnio. Então, aqui, contamos com o apoio dos colegas Defensores que se sensibilizaram com a questão, Doutores Larissa Davidovich, e Eduardo Chow, e convocamos uma reunião com os organizadores do “Fashion Rio” que toparam oferecer cota de 10% para modelos  afrodescendentes. Em relação a 1ª. Marcha da Defensoria Pública contra a Desigualdade Racial, na verdade, tratou-se de um evento sem raiva, sem ranço, sem ressentimento, para que a instituição discutisse a questão racial. Ela ocorreu em 28 de agosto passado, pois, nesta data, só que, em 1963, houve a grande marcha organizada por Martin Luther King em outros líderes negros para Washington (EUA), que completou 50 anos na ocasião. ‘Abrimos um espaço precioso e esperamos que seja um caminho sem volta. Vamos discutir sem medo a questão erradicação das desigualdades sociais e raciais, nos moldes dos incisos  III e IV do artigo 3º da Constituição da República’.”

DESEMPENHO

“No nosso padrão brasileiro o negro sempre tem que demonstrar um desempenho maior para ser reconhecido, sem contar com eventuais tentativas de desqualificação do seu valor. Temos que mudar isso. Não é fácil, mas estamos avançando com exemplos claros de que o Brasil com oportunidades justas, os negros com história de escravidão dos seus ancestrais, podem desempenhar funções de destaque com êxito. Estamos num processo de transição e vamos reverter o quadro atual. Um dia, espero em breve, teremos o fim das desigualdades sociais e raciais. O racismo é uma doença que precisa ser curada o mais rapidamente possível.”

FONTE:  Jornal Questões Negras, no. 13, Agosto/Setembro 2014, Rio de Janeiro.

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