2 anos

de sucesso no mundo do samba

Documento1 - Microsoft Word 5Em meados dos anos 1870, após economizarem e comprarem suas liberdades, famílias de ex-escravos chegam ao Rio de Janeiro, vindas de Salvador, a antiga capital do país, pois a capital fluminense – que, naquela oportunidade, vem crescendo
economicamente- se apresenta ao resto do país como expressão para novos empregos. Em geral, da etnia yorubá ou nagô, estas famílias se instalam no morro da Conceição, no bairro da Saúde, onde passam a formar uma comunidade muito específica de baianos.

Com o passar dos anos, as famílias negras baianas formam um grupo muito influente no local e estimulam a migração de outros negros de Salvador que conseguem deixar o cativeiro. Esta influência se deve ao fato de os escravos baianos terem tido experiências de organização negra importantes em Salvador durante todo o século XIX.

É o início da chamada “ Pequena África”, uma espécie núcleo populacional com grande presença afro, de acordo com a denominação dada pelo sambista Heitor dos Prazeres, filho de uma das chamadas “tias” baianas. Essa “Pequena África” ia da
Praça Mauá até o Catumbi, englobando mais seis bairros ou regiões vizinhas ao Centro.

Esta comunidade cresce, mora precariamente em casas de cômodos, vilas ou  moradias insalubres nos morros do centro do Rio de Janeiro.

Segundo Roberto Moura, em “ Tia Ciata e a Pequena África”, com o esfacelamento da família africana pela escravatura é  geralmente em torno da mulher negra que começa a se formar uma nova família negra entre os escravos forros. São elas, então, que, através do matriarcalismo, implementam os cultos na região.

Entre 1889 a 1920, a chamada “ Pequena África”, chegou a ter por volta de 120 casas de candomblé na região compreendida entre a Praça Mauá, Gamboa,
Santo Cristo, Praça Onze, Cidade Nova, Estácio e Catumbi, segundo pesquisas de historiadores da Universidade do estado do Rio de Janeiro. Essas casas, após a reforma de Pereira Passos, desapareceram ou foram transferidas para a Baixada Fluminense.

Após a abolição, os negros livres não encontram trabalho. Levas e levas de famílias negras deixam o interior do Rio de Janeiro, após a decadência do café no Vale do Paraíba, e ocupam as ruas do Rio de Janeiro. Os empregos e incentivos ao trabalho foram destinados aos imigrantes europeus e asiáticos que se espalham pelo país.

O etnólogo francês Pierre Verger fala em seus livros do espírito ao mesmo tempo empreendedor e dominador da mulher negra: o homem se enfraquece diante do fato de não obter perspectivas profissionais mais prósperas, enquanto a mulher assume liderança doméstica e religiosa na “Pequena África”. É dela que dependerá o destino do grupo e sua continuidade.

Com seus conhecimentos da culinária e da vida doméstica, elas vão para as ruas e montam seus tabuleiros de doces no Largo da Carioca, Largo de São Francisco, Rua da Carioca e Praça Tiradentes. Passam também a vender comida de santo (acarajé, abará, canjica, pipoca etc) nos tabuleiros, atraem freguesia e levam dinheiro para casa.

Mesmo a dura sobrevivência das ruas, as baianas não esmorecerem no cotidiano. Com a iniciativa delas, no final do século XIX, aparecem os primeiros ranchos carnavalescos, na Pedra do Sal, no bairro da Saúde. O “ Rancho das Sereias”, da tia Sadata, é considerado pioneiro, e em seguida, vem o “ Dois de Ouro”, “ Amanhecer” e outros com força inconfundível de “tias baianas”. Esses ranchos são os precursores das escolas de samba de hoje.

Com a atuação nas ruas e na comunidade, essas baianas começam se tornar legendárias. Logo nomes como os das tias Amélia, Perciliana, Sadata, Davina e a famosa Tia Ciata assumem um caráter mitológico na “Pequena África”. Na casa de Ciata, em 1916, nasceu a primeira música registrada como samba chamada de “ Pelo Telefone”, que se tornou uma referência na Música Popular Brasileira(MPB).

As casas das baianas, se tornam, assim, celeiros da cultura popular carioca, com a disseminação de afoxés, cacumbis, jongos, e que, mais tarde, desaguaria para a criação das escolas de samba. Neste período, nos anos 1920, as escolas de samba nascem sob à benção das baianas, que as ocultas criadoras dessa manifestação afro. Em homenagem a elas, as tias baianas, em 1933, através de decreto do então prefeito Pedro Ernesto, se torna uma ala obrigatória em todas as agremiações carnavalescas. E até hoje isso se mantém.

Assim, dali por diante, com formação da ala, as baianas acabam se tornando no mais tradicional segmento das escolas de samba do estado do Rio de janeiro, se destacando como única ala tradicionalmente feminina.

Em 2000, no Grêmio de Rocha Miranda, zona norte do Rio, uma reunião delas, dá um grande passo: decidem criar uma associação para defender seus interesses no carnaval. No ano seguinte, nascia, assim, a ASSOCIAÇÃO SOCIAL E CULTURAL DE INTEGRANTES DE ALAS DE BAIANAS FLOR BEIJADA DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO, dirigida, inicialmente por RODSON MAGALHÃES LOURENÇO.

Assim, a associação, além caráter cultural, passa a identificar necessidades das integrantes desta ala como assistência médica, remédios, auxílios funerais, cestas básicas, bolsas alimentação etc. Através de uma campanha feita pela entidade, algumas empresas passam a ajudar as integrantes desta ala. Mais adiante, em qudras de escolas de samba, foram feitas diversas palestras abordando a saúde na terceira idade, feitas por médicos.

Em 2005, a entidade dá um salto quando organiza o seminário “ A contribuiçãoda ala de baianas para o desfile das escolas de samba”, no Sesc de Madureira, onde, durante um dia, discutiram os entraves e avanços da ala frente `as entidades carnavalescas. Foi, neste seminário, que se fortaleceu a campanha pela redução do peso da fantasia de baiana que até hoje provoca deslocamento de coluna, dores nos ombros e stress.

A partir daí, o grupo de baianas começou a participar de diversos eventos e a discutir seu papel frente ao desfile das escolas de samba.

História e memórias de baianas das escolas de samba