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de sucesso no mundo do samba

JoaosinhoTrintaParticipação

A escola de samba (...) exige uma participação física da pessoa, uma participação de voz, de movimento, quer dizer, todo o ser humano acontece. Ainda tem mais: a escola de samba tem vários enfoques. Ela requer ou engloba vários interesses, como a pesquisa, por exemplo. Para fazer um enredo é preciso pesquisar, daí a ala dos compositores acabar tendo uma cultura enorme, porque eles, na procura de dados para fazerem sambas totalmente diferentes uns dos outros, vão para bibliotecas, vão para vários lugares e acabam tendo um cabedal de conhecimentos muito grande. Tanto que eles gostam muito e dizem, é uma verdade, que samba é cultura.

Aspecto Lúdico

(...) E cada instrumento desses é um grande universo. Mas, principalmente, a soma de tudo isso cria uma força muito poderosa , de interesse, de participação, de atividade, que as pessoas só vêem no desfile, mas que acontece ano inteiro. Toda a preparação de um desfile motiva muito as pessoas envolvidas. Há ainda o aspecto lúdico, da disputa, você ser Beija-Flor, você ser do Salgueiro, tudo isso é estimulante

Classe Z

A escola de samba parece ter todos os ingredientes vitais da dinâmica da vida. E, sobretudo, é uma realização. É aquele momento de sonho, do sonho que nós entendemos como tão importante quanto é o alimento físico e que as pessoas necessitam. Principalmente, essa de classe Z que, por incrível que pareça, estão cheias de energia , estão num mundo muito mais aberto, são muito mais receptivas.

Posse do corpo

O que eu acho fantástico na escola de samba é que as pessoas possuem seu corpo. (...) Quando alguém é vibrátil a ponto de expressar o bater do tamborim ou do agogô, quer dizer, o ritmo do samba, eu acredito que essa estrutura é perfeita. Eu falo do tamborim e do agogô porque são instrumentos de toques sutis. O surdo marca bem o ritmo, mas esses outros tipos de instrumento brincam. É preciso muita receptividade para alcançar, para estar dentro do toque deles. Isso me fascina, porque um ser humano que tenha essa receptividade é um ser humano poderoso.

Nagô

(...) E aí eu faço um enredo que se chama “A criação do Mundo na Tradição nagô”. Na tradução nagô está todo aquele conhecimento, aqueles símbolos que você vai encontrar nos Vedas, no Livro dos Mortos, no Egito, eu li alguma coisa no trabalho de Jung sobre todos esses símbolos, e fui encontrando os meus parâmetros.

Transformação

(...) trouxe os valores do rancho e da grande sociedade e transformei o desfile da escola de samba, botei pra vertical, aumentei os carros...Por que aumentei os carros? Só por grandeza, só porque eu sou pequeno ? Não. Porque eu tive a visão do espaço da arquibancada. Há trinta anos não era necessário fazer carros grandes porque o espaço era a Praça Onze, e uma população muito menor assistia ao desfile. Nem era necessário arquibancada. Havia bancos e as pessoas levavam caixotes. Era muito pequena a dimensão de quem assistia. Quer dizer, o visual de quem está naquela arquibancada lá em cima é totalmente diferente do visual da Praça Onze de 30 anos atrás, que era corda, que era chão. Então, eu não fiz crescer o carro gratuitamente. Eu fiz crescer o carro na medida em que as arquibancadas cresceram, na medida em que o Rio cresceu, na medida em que a população aumentou, na medida em que a escola de samba deixou de sair como saía há 30 anos, com 100, 200 pessoas, saindo hoje com 3.000. Eu apenas acompanhei a dinâmica do tempo e do espaço.

Fonte: Psicanálise Beija-G]Flor. Joãozinho Trinta e os analistas do Colégio ( freudiano). Editora Aoutra/Taurus, Rio de Janeiro, 1985.

História e memórias de baianas das escolas de samba