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de sucesso no mundo do samba

tiacarmen"Tia Carmem era a última das grandes iabas que atravessaram o século, assegurando a representatividade da chamada Pequena África, encravada no coração do Rio de Janeiro, que é a Praça Onze. Tia Carmem tinha recordações e lembranças presentes daquelas casas de Tia Prisciliana, de Tia Cecília, de Tia Ciata, tias com as quais ela conviveu e que eram o grande consulado da África de pés no chão, aqui no Centro do Rio de Janeiro, no final do século 19 e início do século XX." Jose Carlos Rego

Este perfil traçado pelo jornalista e sambista José Carlos Rego dá o tom geral da vida de CARMEM TEIXEIRA DA CONCEIÇÃO( 1878-1988) a Tia Carmem do Xibuca, uma das primeiras integrantes da ala de baianas da Estação Primeira de Mangueira.

Tia Carmem nasceu, em 1878, em Salvador, e chegou ao Rio de Janeiro aos 15 anos, migrando junto com a família, que se estabeleceu na Praça Onze. Ao morrer aos 110 anos, deixou 40 netos, 50 bisnetos e 30 tataranetos.

Teve 22 filhos.

Quando saía pelas ruas do Centro era constantemente parada por jovens ou senhoras que lhe beijavam a face ou as mãos. Estas pessoas quando crianças tinham sido tratados pela rezadeira Tia Carmem contra males de nascimento ou que se apresentaram na infância. Quando souberam que a cura deveu-se a Tia Carmem, passaram a dedicar-lhe uma devoção extrema.

Tia Carmem foi biografada para a Coleção Personalidades Negras, da Editora Garamond, pela assistente social Yara da Silva, sua neta, onde, na obra, podemos ver a história cultural do Rio de Janeiro pela ótica região da chamada “Pequena África” ( Praça Mauá, Praça Tiradentes, Praça Onze, Gamboa, Saúde...) onde não falta ranchos, candomblés, malandros, cacumbis, blocos de sujo, perseguição policial e a rica culinária africana. Isso tudo, claro, através da fala de Tia Carmem do Xibuca, personagem marcante do final do século XIX até os anos 1980, nesta mesma região.

Nos anos 1910 e 1920, no Rio, o famoso João Alabá era pai- de-santo da maioria das tias baianas, entre elas, Tia Carmem e Tia Ciata. O culto aos orixás e as rodas de samba mesclavam sambistas e filhos de santo das casas da Tia Ciata e de Tia Carmem do Xibuca.” Vovó contava que José Barbosa da Silva, o Sinhô, costumava a levar seus sambas para serem rezados pelo alufá Henrique Assumano Mina do Brasil e, assim, fazerem sucesso”, escreve Yara da Silva...

Yara relembra que sua avó era muito vaidosa. Se vestia de baiana, sem dispensar as sandálias de salto, anéis, colares, pulseiras e brincos bem grandes. Sua casa era o local onde a baianada da velha guarda se reunia regularmente no dia São Cosme e São Damião. Durante 50 anos, Tia Carmem fez festas e oferendas para estes dois santos.

Ela foi passista, porta-bandeira e componente da ala de baianas da Mangueira. Desfilou nas escolas de samba que não existem mais como Manacá, Flor do Abaeté e Chuveiro de Prata.

Para manutenção da extensa família, Carmem do Xibuca se valeu da culinária afro que aprendeu com a mãe. Ela vendia nas ruas do Centro, em seu tabuleiro, variada gama de doces e salgadinhos.

Yara dá mais detalhes a respeito disso quando transcreve uma fala de sua avó sobre as origens da família:

“Sua bisavó ( Tia Carmem falando com Yara), minha mãe, vendia peixe frito, acarajé, aipim cozido e bolo de milho na praia de Itapuã, porque em frente à igreja do Bonfim só era permitida a venda de comida em dias de festa. Quando viemos para o Rio de Janeiro ficamos hospedadas na casa de um compadre, na Rua Barão de São Felix, mas acabamos resolvendo morar no Rio e trabalhar aqui”.

Tia Carmem sabia que aquela fuzarca da antiga Praça Onze tinha também o seu contraditório.Também existiam até bandidos e malandros.Mas ela acrescenta convicta a esses respeito:

“ Sempre convivi com gente do alto e do baixo mundo, já que vivi sempre na Praça Onze, reduto da boêmia. Os valentes eram Brancura, Baiaco, Saturnino, Zé Mulatinho, Trindade, Arnu, um mulato estivador. Eles brigavam muito lá na Marquês de Sapucaí, onde tinha um bar – davam tiros, tinha mortes. Mas todos me chamavam de tia, me conheciam, me respeitavam. Vinham sempre nas minhas festas e nunca cometeram uma desavença”.

História e memórias de baianas das escolas de samba