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de sucesso no mundo do samba

MuseudoNegroFazendo nossa própria história.

Foi com este mote que o Museu do Negro foi reinaugurado na sexta passada na Irmandade Nossa Senhora do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos, com a presença de artistas, intelectuais e militantes da causa negra que vibraram pela revitalização do espaço cultural.

Feliz, a historiadora Fabiana Cândido, diretora do museu, disse que o espaço será uma referência dali por diante para o passado do afrocarioca.

“ Deus está permitindo a gente fazer o resgate de nossa história”, vibrou o padre Edmar Augusto, da Irmandade, que celebrou um pequeno culto, em homenagem a reinauguração. Ele reafirmou que alma dos escravos estava presente naquela solenidade.

Citando sua religião afro, o historiador Ricardo Passos desejou paz, harmonia e sucesso para os presentes e para trajetória do museu dali por diante, e depois jogou água de cheiro no público.

O provedor Carlos Alberto disse que a reinauguração ficará na memória dos dirigentes da Irmandade.

Também estiveram presentes à solenidade o teatrólogo Reinaldo Santana, o professor João Batista, e a professora Dulce Vasconcelos, presidente do Conselho Municipal de Defesa dos Direitos dos Negros.

Entre peças expostas no segundo andar da Irmandade havia esculturas da escrava Anastácia, quadros, fotografias, panelas de barro, atabaques, carrancas, bustos variados, fechaduras e os tradicionais instrumentos de tortura de escravos como chaves, correntes, algemas etc.

Quando se mexe com o passado, ele volta.

Isso parece acontecer com o Museu do Negro da Irmandade Nossa Senhora do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos – mais 370 anos-, na Rua Uruguaiana, no Rio.

Escrava AnastaciaMod2-Museu do negro-CNC1 2A historiadora Fabiana Cândido, a nova diretora-geral do Museu, tem aberto caixas, pacotes, embrulhos, de diversos tipos e tamanhos, para entender o acervo da instituição tricentenária.

Quanto mais mexe, mais encontra novidades.

Foi assim que descobriu que a Irmandade se transformou por um determinado período na redação de três jornais abolicionistas, que funcionavam lá dentro, com gráfica e tudo, e com a supervisão de André Rebouças, José do Patrocínio, Ferreira de Menezes, e outros abolicionistas afrodescendentes.

Também, durante a ditadura militar (1964-1985), a gráfica da Irmandade imprimiu panfletos de grupos antiditadura.

Mas os equipamentos gráficos sumiram, Fabiana não encontrou a gráfica lá, mas exemplares do jornal “Redenção”, da própria entidade, que funcionou, ali, nos anos 1990.

Ao mesmo tempo, foi localizado diversos documentos da Marinha abordando variados assuntos da força naval. Provavelmente, alguns irmãos da entidade poderiam ser marinheiros. A Marinha foi avisada da descoberta, ficou fascinada pelos documentos, mas os novos administradores do Museu não quiserem repassá-los por enquanto.

Por falar, em Marinha, foi na Irmandade, no Consistório, onde foi assinada a anistia aos marinheiros da Revolta da Chibata, em 1910, depois de várias reuniões entre representantes dos marujos e do estado.

Mas a Marinha não cumpriu o acordo e acabou prendendo João Cândido e seus companheiros, após estes entregarem os navios amotinados na Baía de Guanabara.

No entanto, a Irmandade não desistiu.

Reuniu-ne, com então advogado Evaristo de Morais Filho.

Este foi contratado como defensor de João Cândido, após uma campanha de arrecadação de verba entre os membros da Irmandade, que organizaram tal empreendimento.

Os irmãos daquele tempo julgaram que João Cândido estava sendo humilhado, injustiçado e emparedado pelos políticos da República Velha, principalmente pelo poder aristocrático da Marinha.

Fabiana espera ainda localizar mais documentos sobre o grande episódio popular da Belle Époque já que o fato de ser historiadora instiga seu percepção e por isso vem abrindo caixas e mais caixas pretas do passado da irmandade e de seu famoso Museu do Negro.

Outra novidade que deverá ser apresentada na reinauguração, serão duas esculturas em madeira da Escrava Anastácia ( foto), que estavam guardadas, e foram doadas pelos artistas plásticos , devotos da santa, à Irmandade.

 

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