2 anos

de sucesso no mundo do samba

CarlinaMariadeJesus1Em 1958, uma mulher negra, de 44 anos, alta, porte soberbo, cata restos de comida pelas ruas do Centro de São Paulo. O que colhe serve para alimentar seus filhos e outras crianças da favela.

Ela nem terminara  o curso primário. Nascera em Sacramento, em Minas Gerais, viera ainda adolescente como migrante para São Paulo, e na cidade acabou morando na favela do Canindé, hoje extinta.

Neste mesmo ano, um jornalista indignado com a situação miserável do povo brasileiro, consegue que o chefe de reportagem de seu jornal ( “Folha da Noite”)  aprove sua pauta de cobertura sobre os deserdados da cidade.

Ou seja, ele quer mostrar como é uma favela por dentro, já que este tipo de moradia precária e desumana vinha preocupando as autoridades públicas da época.

O repórter em questão era  Audálio Dantas, ex- presidente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, nos anos 1980. Durante sua investigação pelas favelas, acabou encontrando a favelada de porte soberbo que colhe restos do lixo.

Era Carolina Maria de Jesus.

Ele fica encantado com a mendiga negra do Canindé.
Esta, por seu turno, sente que pode confiar naquele homem branco, que quer entender o mundo favelado.

Assim, ela lhe mostra diversos cadernos encardidos, que recolhera no lixo, que foram utilizados por Carolina para escrever seu cotidiano naquela miséria paulistana.

Audálio, excitado, sentindo que estava diante de uma grande reportagem,  leva os cadernos para casa, e fica assustado/deslumbrado com o que lê.

Era um registro cru, criativo e detalhado do cotidiano de uma catadora de lixo da favela do Canindé, dando conta, numa narrativa emocionante, do que era o mundo dos pobres e dos  miseráveis das favelas paulistas.

O jornalista escreve sua reportagem.

Mas, nela, utiliza diversas citações do diário de Carolina Maria de Jesus, a favelada negra que se recusa a ficar impassível à sua tragédia pré-estabelecida. Ali, naquelas, em letras miúdas, ela relata com precisão sua vida e dos outros favelados dos anos 1950.

A reportagem repercute.

CarolinaMariadeJesusMais à frente, o jornalista publica mais relatos de Carolina na revista “ O Cruzeiro”, a mais importante daquele período. Não tem outra: a poderosa editora Francisco Alves, da época, com a supervisão de Audálio, publica o diário de Carolina chamado “Quarto de Despejo”, e o livro se torna best-seller.
Pela primeira vez, na história da literatura brasileira, uma mulher se tornava um best-seller, lida por diferentes classes sociais. E o mais complicado disso tudo, o sucesso vinha de uma favelada,  quase  analfabeta, que tecia com inigualável potência, o cotidiano dos seus semelhantes para sobreviverem às intempéries  e à injustiça no mundo dos privilegiados urbanos.

Talvez a mais sofisticada biografia sobre Carolina Maria de Jesus tinha sido escrita pelo historiador afro Joel Rufino dos Santos, chamada “Carolina Maria de Jesus:  uma escritora improvável”, para a Coleção Personalidades Negras da Editora Garamond, em 2009.

Aqui, Rufino não  só utiliza de tudo (livros) publicados sobre a autora como faz diversas incursões sobre a sociedade brasileira da época onde a escritora viveu. Desse modo,  nos dá  um complexo panorama do “ser escritor afro” numa sociedade que é racista historicamente, mas sempre nega sempre esta condição através de diversos mecanismos que tentam amenizar esta tensão, um deles, a tal da democracia racial, que, neste milênio, se espatifou com o racismo explícito dos brasileiros que aparecem comumente nos jornais.

Carolina Maria de Jesus nasceu a 14 de Março de 1914,  em Sacramento, Minas Gerais, cidade onde viveu sua infância e adolescência.


“Quarto de despejo” foi lançado em 20 de agosto de 1960
Em um mês, dez mil exemplares fora vendidos.
Dali por diante, a autora deixou a favela, se tornou personalidade nacional, foi requisitada  e ganhou projeção internacional, fato raríssimo para uma mulher negra...ou se seja, se projetar como escritora.

Em 1964, época do surgimento da ditadura militar ( 1964-1985), paradoxalmente, segundo Rufino, foi o ano  no qual a escritora  brilhou em festas, festivais, entrevistas no rádio e televisão, comícios, recepção em palácios de governo, viagens...

Rufino, neste contexto, tem uma opinião contraditória sobre Carolina.

Ele escreve:

“ Eu admirava e ao mesmo tempo a menosprezava. Contraditória e ideologicamente, ela desafiava às minhas classificações de jovem marxista, acostumado a dividir a humanidade em alienados e politizados”, explica o biógrafo.

Rufino detalha ainda  que Carolina não era  a favelada resignada que todos pensam. Segundo o historiador, era uma espécie de Nzinga numa situação oposta, pois, aqui, não tinha cetro nem coroa.

Estava como mendiga, catadora de lixo, sem perspectivas de mudança social...

Mas nunca aceitou a miséria, apesar de ter vivido muitos anos com ela.

“ Fiz dela aqui um retrato: bovarista, marrenta, inteligentíssima, capaz de se tornar escritora com só dois anos de escola, mulher interessante, fisicamente parecida com uma fluminense de sucesso tardio, Clementina de Jesus. Retrato infiel? Confirmei alguns clichês, fugi de outros”, escreve Rufino.

Para Rufino, qualquer juízo sobre Carolina e sua obra não devem esquecer que ela são três: a mulher, a escritora e a personagem criada pela escritora.

O que ele mais se queixa é que a escritora não teve lugar reconhecido na história de nossa literatura até hoje.

Muito antes de ser sucesso no mundo literário burguês dos anos 1960, Carolina catou cadernos e livros no lixo. Talvez o fizesse evitando olhares, como os antigos mineiros que contavam o dinheiro no próprio bolso: ler e escrever num país em que a instrução é monopólio dos de cima tem algo de obsceno, diz Rufino.

Carolina foi o que os dicionários chamam de grafomaníaca: pessoa com tendência compulsiva, doentia, de fazer registros gráficos, rabiscos e, especialmente, escrever em qualquer superfície ou material imediatamente acessível.  

“ Vício de escrevinhar, ser infeliz se passar um dia sem escrever. Nem todo grafo maníaco, porém, será escritor. Há uma diferença essencial entre escrevinhador e o escritor. Este é aquele que tem algo a dizer em favor dos homens, e numa forma que todos os homens possam compreender. Escrevinhar é uma mania, escrever é uma tarefa, luta diuturna, sem vencedor, com as palavras até que digam da nossa força e fraqueza de humanos”, avalia  o biógrafo.

Uma das manifestações do talento literário em Carolina é seu poder de descrição. Ela criava imagens poéticas mesmo quando errava na concordância nominal- falha, aliás, comum em pessoas instruídas- e na grafia.

Segundo Rufino, era capaz de belas imagens, como ao contar uma festa de políticos, em que haveria distribuições de “surpresas para pobres”
Fazia tudo para ser vista, apreciada, gostada – ou detestada, rejeitada, que fosse.

O insuportável era que não vissem, na rua, no ônibus, na favela. Feios, baianos, pretos, não se reconhecia através deles, mas de homens brancos – estrangeiros, de preferência, conta o biógrafo.  Nos olhos desses homens via imagem que tinha de si: bonita, inteligente, gostosa...

Ela, ao escrever uma peça, e ter sido rejeitada pelos editores por se negra, escreveu:

“ Esquecendo eles que eu adoro a minha pele negra, e o meu cabelo rústico. Eu até acho o cabelo negro mais educado do que o cabelo de branco. Porque o cabelo de preto onde põe, fica. É obediente. E o cabelo de branco, é só dar um movimento na cabeça ele já sai do lugar. É indisciplinado. Se é que existe reencarnações, eu quero voltar sempre preta”.


Rufino acrescenta:

 “ Suponho, mas é suposição, que suas fontes literárias fossem antologias escolares daquele de século XX, de que tirou o máximo proveito, como outros poetas de baixa escolaridade e grande expressividade, um Cartola, um Catulo da Paixão Cearense, um Silas de Oliveira”.

Na esteira de “Quarto de Despejo”, nasceu o Movimento Universitário de Desfavelamento.

O livro de Carolina, na visão de Rufino,  desfez estereótipos naquela época que todos tinham  dos favelados: que são unidos, que não têm preconceitos, que são solidários, talentosos sambistas, cordiais e infelizes.

Escreve ele:

“ Carolina nos apresenta outra favela: no Canindé, os favelados são desunidos, preconceituosos, egoístas, medíocres, nem sempre apreciam batuques, são agressivos – e felizes. Semelhante a retratistas da alta burguesia – um Fernando Sabino, um Lúcio Cardoso, um Scott Fitzgerald – ela exibiu o contrário do que pensamos de fora: os homens, em qualquer posição social, se parecem mais do que se diferenciam. Rasgou máscaras sociais”.

Carolina ainda foi autora dos seguintes livros:

 “ Casa de alvenaria: diário de uma ex-favelada” ( Francisco Alves, SP, 1961)
“Pedaços da fome” ( Aquila, São Paulo, 1963)

“ Provérbios” ( São Paulo, s/e, s/d

“Diário de Bitita” ( Nova Fronteira, RJ, 1986).

História e memórias de baianas das escolas de samba