2 anos

de sucesso no mundo do samba

darcy-ribeiro-fotoO mais importante crítico literário vivo do país, Antonio Cândido, de São Paulo, tem sua lista de grandes obras. Para ele, todos os brasileiros deveriam lê-las. Esta lista está sendo divulgada nas redes sociais, principalmente no Facebook.

Entre os livros arrolados por ele, de extrema importância para entendimento da nação brasileira, no seu entendimento, encontra-se “ O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil”, do antropólogo Darcy Ribeiro ( 1922-1997).

Esta obra foi publicada em fins dos anos 1990.

Essa indicação me chamou atenção, pois, na época de seu lançamento, não despertou interesse acadêmico nem midiático.

Lembro que, naquele momento, vários intelectuais disseram ser a pior obra de Darcy Ribeiro.

Na época, ele era considerado um maiores antropólogos brasileiros do século XX, juntamente com Gilberto Freyre e Roberto da Matta.
Darcy concluiu sua obra em meio a um câncer que o vitimou, e assim perdemos um dos maiores intelectuais brasileiros de todos os tempos.

Com a dica de Antonio Cândido, fui na minha estante e resgatei a obra.

Para dar uma conferida depois de tantos anos sem consultá-la.

Na verdade, eu tenho uma edição de bolso (435 páginas), da Companhia das Letras, de 2006.

A obra fora editada pioneiramente em 1997.

Ao reconsultá-la, logo me interessei pelo capítulo “Classe, cor e preconceito”.

Na verdade, eu já tinha lido a obra para uma prova numa pós onde fui reprovado, no início dos anos 2000.

Mas, lendo-a, hoje, com novos condimentos significantes, olhos mais experientes, claro, a leitura é outra, completamente diferente.

Com um lápis marca–texto, isolei diversas passagens deste capítulo, que, em minha opinião, são muito importantes para nós, negros, e também para se entender porque a chamada “academia” foge desta obra como o diabo foge da cruz.

Vejamos, somente por um ângulo ( porque, nesta obra, Darcy Ribeiro aborda diversos ângulos e conexões aprofundadas e contraditórias das relações raciais no país), como ele analisa o comportamento das chamadas classes dominantes, em relação aos demais indivíduos.

Escreve ele:

“A classe dominante bifurcou sua conduta em dois estilos contrapostos. Um, presidido pela mais viva cordialidade nas relações com seus pares; outro, remarcado pelo descaso no trato com os que lhe são socialmente inferiores. Assim é que na mesma pessoa se pode observar a representação de dois papéis, conforme encarne a etiqueta prescrita do anfitrião hospitaleiro, gentil e generoso diante de um visitante, ou o papel senhorial, em face de um subordinado. Ambos vividos com uma espontaneidade que só se explica pela conformação bipartida da personalidade” .

Em outras palavras: na perspectiva de Darcy Ribeiro, usa-se a repressão/indiferença àqueles que não são do circulo, e amabilidade para os iguais como modelo de manutenção tupiniquim do poder.

Deste modo, cabe, neste sentido, a classe senhorial ser indiferente ao negro em qualquer circunstância, já que ele não exprime as condições “iguais” para se ombrear com o senhor, isto, as classes dominantes.


Nasce, nesta avaliação de Darcy Ribeiro, o desprezo histórico do destino do outro pelos mais fortes, ou seja, desprezo pelo negro.

Darcy Ribeiro acrescenta que um dos aspectos mais complicados em termos humanos é que as classes dominantes sempre trataram os negros como bucha de canhão e nunca como um cidadão.

Neste sentido, ela, a classe dominante, originada dos senhores patriarcais, achava natural que ele, o negro, fosse destruído nas minas, nos trabalhos como bóia-fria, como migrantes das metrópoles ou como indivíduo sem nenhuma qualificação, vivendo à custa de sua criatividade.

Se tornaram, segundo ele, detritos humanos, no campo e na cidade.

Darcy Ribeiro, neste monumental capítulo de sua obra, prossegue em sua análise das relações raciais brasileiras, mostrando, ao contrário de Gilberto Freyre, que não houve em nenhum momento a tal democracia racial brasileira, ou seja, onde os negros foram integrados e tiveram direitos respeitados pelas classes dominantes.

Na verdade, escreve ele, desde sua presença nestas terras, submetido a trabalhos vis, humilhado, punido com todo tipo de instrumento escravocrata ( correntes, gargalheiras, algemas etc), restou ao negro a imagem de um ser atrasado, selvagem, incapaz, indefinido e motivo constante da repressão da classe dominante, segundo o antropólogo.

debret  franca brasil 2E o que é pior, acentua Darcy Ribeiro, o negro sempre é culpado pela sua penúria e nunca o sistema de classes instalado no país a partir do sistema escravista, que, em determinados signos, perdura até hoje, com o Ministério do Trabalho atrás de empresas que fazem uso ainda do trabalho escravo.

Nesta perspectiva, Darcy Ribeiro escreve o seguinte:

“ Nestas circunstâncias, seu sofrimento não desperta nenhuma solidariedade e muito menos a indignação. Em conseqüência, o destino dessa parcela majoritária da população não é objeto de nenhuma forma específica de ajuda para que saia da miséria e da ignorância”.

Neste sentido, alguém lembra, aqui, quais as camadas que se compadecem das tragédias dos jovens negros exterminados como animais nas grandes cidades, enquanto a morte de um jovem branco em condições odiosas provocam grande estardalhaço?

Ora, o corpo negro, na perspectiva de Darcy Ribeiro, não tem sentido nesta estrutura de classes, pois, sempre foi visto como peça movedora de máquinas e nunca como cidadão, assinala ele.

De acordo com ele, em 1871, os fazendeiros criaram um sistema de jogar nas ruas, nos asilos, nas zonas rurais despovoadas, as crianças negras nascidas após a Lei do Ventre Livre. Se elas nasciam livres, raciocinaram os escravocratas, não dependiam mais de sua proteção, já que sua preocupação era ter os futuros braços para movimentar a engrenagem agrícola.

Mais à frente com a Abolição, os negros foram deixados ao deus dará, enquanto país estimulava a vinda dos imigrantes, assinala o antropólogo.

Segundo Darcy Ribeiro, da escravidão até hoje, não se alterou a estrutura de classes no Brasil. Aliás, assegura ele, se sofisticou mais ainda.

Na perspectiva de Darcy Ribeiro, as taxas de analfabetismo, criminalidade e mortalidade dos negros são as mais elevadas, refletindo o fracasso da sociedade em cumprir, na prática, seu ideal professado de uma democracia racial que integrasse o negro na condição de cidadão

 

História e memórias de baianas das escolas de samba