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de sucesso no mundo do samba

1176251 4883311895313 995728157 nO Quilombo de Palmares, nascido em 1600, entre Alagoas e Pernambuco, se tornou no maior estado negro independente das três Américas, com mais 40 mil escravos rebelados, e construindo uma nova nação, em contraponto á violência do colonialismo português. Seu líder maior foi Zumbi dos Palmares, que, durante 17 anos, derrotou as tropas portuguesas em sucessivas batalhas. Acompanhe um ABC deste quilombo famoso na história do Brasil:

A
ACORDO - Em 1677, sob o comando de Ganga Zumba - o primeiro Grande Chefe do Estado Negro - Palmares enfrenta mais uma tropa portuguesa, a de Fernão Carrilho. Nesta batalha, os portugueses aprisionaram 47 pessoas, entre os quais, dois filhos de Ganga-Zumba ( Zambi e Acaiene), mais netos e sobrinhos do líder de Palmares. Um dos seus filhos de Ganga Zumba, Toculo, foi morto na luta. O próprio líder dos escravos rebelados saiu ferido por uma flecha, mas escapou. No ano seguinte, o governador-geral da capitania de Pernambuco, Pedro de Almeida, faz uma proposta de paz a Ganga-Zumba, oferecendo "união, bom tratamento e terras" aos quilombolas. Com essa proposta, cessava a guerra entre a Coroa e Ganga Zumba. O governador prometia ainda devolver as mulheres e os filhos de negros que estivessem em seu poder. Em junho de 1678, um oficial do Terço dos Henriques – tropa formada por negros para combater invasores estrangeiros e quilombolas -,foi enviado a Palmares para levar a proposta da Coroa. Ao regressar, a Recife trazia um grupo de 15 palmarinos, entre os quais, se encontravam três filhos de Ganga-Zumba, recebidos pelo governador Almeida. Em troca de paz, os palmarinos pediram liberdade para os nascidos em Palmares, permissão para estabelecer "comércio e trato" com os moradores da região e um lugar onde pudessem viver "sujeitos às disposições" da autoridade da capitania. Prometiam ainda entregar os escravos que, dali por diante, fugissem para Palmares. Em novembro do mesmo ano, Ganga Zumba foi a Recife assinar o acordo. É cedida a ele e seus partidários a região de Cucaú, distante 32 km da cidade Serinhaém. Parte importante dos palmarinos, liderados por Zumbi, então com 23 anos e líder emergente do quilombo, são contrários ao acordo de paz assinado por Ganga Zumba e se recusam a deixar Palmares. Em Cucaú, vivendo sob forte vigilância dos portugueses e hostilizado pelos moradores das vilas próximas, Ganga-Zumba vê frustada sua iniciativa, e morreu envenenado por um partidário de Zumbi.


B
BRITO FREIRE- Governador de Pernambuco, entre 1661/1664. Segundo ele, só havia duas maneiras de lidar com os palmarinos. A primeira, em mover-lhes guerra sem fim, tornando-lhes impossível a vida; e a segunda, fundar na região de Palmares duas povoações. Destas povoações, os quilombolas seriam fustigados incessantemente. Outra solução: conceder alforria aos palmarinos na "forma de todos os outros negros seus parentes alistados no Terço de Henrique Dias". Brito Freire, porém, reconheceu que não seria fácil conseguir a adesão dos escravos em função da desconfiança deles em relação às promessas da Coroa.

C
CIDADES - O quilombo de Palmares era formado por mais ou menos 10 povoações perfazendo um total de 30 mil habitantes de diversas etnias. As principais cidades eram Macaco, situada sobre a serra da Barriga. Tinha mais de 1.500 casas e 8 mil moradores. Era a capital do estado negro por ser estrategicamente inexpugnável. Amaro, ficava a 54 Km a noroeste da cidade Serinhaém. Subupira. Distante 36 Km de Macaco, tinha 6km de extensão. Estava delimitada por três montes. Osenga. Situava-se entre os rios ribeirinhos Paraibinha e Jundiá. Distava cerca de 20 Km a oeste de Macaco. Zumbi. Situava-se a 96 km a noroeste da cidade colonial de Porto Calvo. Acotirene. Estava a 30 km ao norte de Zumbi e 180 km a noroeste de Porto Calvo. Tabocas Vizinha a Zumbi. Dandrabanga. A 84 km de Tabocas. Dois Irmãos. Perto de Acotirene. Andalaquituche. Ficava a noroeste de Alagoas, 150 Km, na serra de Cafuxi.


D
DOCUMENTOS - É engano supor que a história do quilombo de Palmares não é mais detalhada por falta de documentos. Segundo o historiador Flávio Gomes, em entrevista a "Folha On Line" (28.10.2002) documentos existem, são acessíveis e muitos deles estão transcritos aqui, no Brasil, na Holanda e em Portugal. "O que falta é interesse. Você pode escrever a história sem dispor de todos os documentos. Não vai aparecer esse documento que possa revelar ou alterar tudo. Isso não existe", afirmou o historiador.


E
ESTADO - Devido à sua extensão territorial, suas leis, sua organização interna, o sistema de defesa e a interrelação entre suas 11 cidades, Palmares sempre é tratada em alguns livros como um poderoso Estado Negro das Américas. Durante o século XVII, não existia comunidade escrava resistente similar nas Américas, que enfrentou durante quase 100 anos as tentativas de destruição organizadas pelos portugueses, usando todo o tipo de mercenário. O Estado se fortaleceu mais ainda durante a invasão holandesa, quando os portugueses foram obrigados a esquecer os quilombolas e se concentrar na expulsão dos invasores.

F
FORTIFICAÇÕES- "Eram sólidas e aparentemente inexpugnáveis. Consistiam em uma tríplice cerca de madeira e de pedras que circundava a praça numa extensão de aproximadamente cinco quilômetros e meio. Na parte de fora, eram escavados largos e profundos fossos dissimulados por vegetação e crivados de estepes, puas pontiagudas de ferro que chegavam à altura ora das virilhas, ora da garganta de um homem. A área semeada de estrepes se estendia por considerável distância longe das fortificações, mas ainda assim bastaria que um homem assomasse na sua extremidade para logo se constituir em alvo dos atiradores e arqueiros palmarinos". ( Décio Freitas, em “Palmares: a guerra dos escravos”, 1978).
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G
GANGA ZUMBA- Um dos primeiros líderes do quilombo de Palmares. Passou para a história como um negro conciliador que se aliou aos escravistas quando assinou o Acordo de Paz com os portugueses, em 1678. Depois de brigar com Zumbi - na época, o comandante dos exércitos dos quilombos - por causa do acordo, foi com mais 1.000 partidários para Cucaú, terra cedida pelos portugueses aos quilombolas. Lá, Ganga Zumba teria sido assassinado por um partidário de Zumbi. Hoje, esta sendo revisto como importante líder negro, que usou uma estratégia conciliatória para preservar a comunidade que comandava. Essa estratégia foi empregada por outros escravos em outros países da América.

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H
HIERARQUIA - Em Palmares, o rei de todos os quilombos era escolhido através de uma assembleia de chefes dos quilombos. O chefe de governo era chamado de Grande Senhor ou Grande Chefe. O primeiro Grande Chefe que se tem notícia foi Ganga Zumba. Havia ainda os prefeitos ou governadores de cada quilombo. Depois destes, vinham os chefes militares, que organizavam a defesa das povoações, segundo uma estratégia geral.

I
INDIOS - Bastantes utilizados pelas tropas portuguesas para combater Palmares. Devido ao conhecimento da selva, conduziam as tropas portuguesas para as proximidades de Palmares. Durante a invasão holandesa, participaram do Terço do índio Felipe Camarão, que combateu os invasores holandeses. Foram usados massivamente por Domingos Jorge Velho durante a ocupação de Macaco e a posterior destruição das demais povoações quilombolas.


J
JUSTIÇA- Diversos estudos como Mário Martins de Freitas. (“Reino negro de Palmares”,Bibliex, RJ, 1988) demonstram que após Zumbi tomar o poder este criou uma espécie de Ministério da Justiça que decidia sobre conflitos entre os quilombolas e também determinava quais as penalidades para os “crimes” de deserção e traição. Segundo Décio de Freitas e João Rufino dos Santos ( “Zumbi”), o mais famoso Rei palmarino criou um corte marcial que julgava casos de rompimento das regras internas das cidades quilombolas, e por isso, consideram que seu “governo” teve aspectos ditatoriais.


L
LIVROS- Os mais clássicos que abordam historicamente o quilombo são os seguintes: "Palmares, a guerra dos escravos", de Décio de Freitas (Graal, RJ, 1978, 3ª edição), ^Reino Negro de Palmares”, de Mário Martins (Biblioteca do Exército, RJ,) " O quilombo dos Palmares", de Edison Carneiro ( Civilização Brasileira, RJ, 1966) e "Memorial dos Palmares", de Ivan Alves Filho ( RJ, Xenon, 1988). “ Palmares”, de Flávio Gomes e “ De Olho em Zumbi dos Palmares”, de Flávio Gomes, “ Palmares, ontem e hoje”, de Pedro Paulo Funari e Aline Vieira de Carvalho. Livros que ficcionam Palmares: "A incrível e fascinante história do capitão Mouro", de Georges Bourdoukan, "Tróia Negra: A saga dos palmares", de Jorge Landmann e “ Ganga Zumba”, de João Felício dos Santos.


M
MOURO- Alguns documentos falam da presença de um mouro ( um negro sudanês islamizado) misterioso em Palmares. Os documentos diziam ser ele o homem de confiança de Zumbi por ser responsável por todas as fortificações construídas em volta dos quilombos. O jornalista Georges Bourdoukan, lançou em 1997, “ Capitão Mouro” ( São Paulo, Sol e Chuva), onde ficciona a presença deste personagem com Zumbi, e sua participação na defesa do território quilombola. Décio Freitas escreve sua versão sobre o personagem: "Corria em Pernambuco que a construção do sólido sistema defensivo de Macaco fora sugerida por um mouro residente em Palmares, provavelmente um negro muçulmano das regiões sudanesas islamizadas. Não seria de estranhar que o mouro aconselhasse um sistema de defesa rígida. Na península ibérica os seus antepassados se tinham aferrado obstinadamente à concepção militar da defesa murada e do assédio estático ainda depois que o inimigo passara a empregar recursos bélicos capazes de anulá-la. Talvez nosso mouro soubesse quão precário se tornara este tipo de defesa depois do aparecimento do canhão, mas, provavelmente, não imaginava que os expedicionários lograssem transportar artilharia até o cume da serra da Barriga".


N
NOVIDADE- Possivelmente a grande novidade na expedição do bandeirante Domingos Jorge Velho, em 1694, que destruiu Palmares, fora o emprego de seis canhões , usados pela primeira vez, numa batalha palmarina. O canhão abriu frestas no sistema de defesa palmarina e permitiu que as tropas mercenárias de Velho avançassem sobre os quilombolas, atordoados por uma arma que desconheciam. O canhão só chegou à altura da serra da Barriga, de frente para a defesa de Macaco, porque um sentinela do quilombo teria dormido e não viu a aproximação dos inimigos.

O
OFENSIVAS- Os historiadores ainda não têm idéia de quantas ofensivas foram feitas pelos portugueses em quase 100 anos para acabar com o quilombo de Palmares. Existem cálculos em torno de 43 expedições fracassadas. Neste período, todos os governadores organizaram tropas contra o quilombo. Todas estas ofensivas se anulavam diante do excelente sistema de defesa palmarino, que procurava atrair o adversário para armadilhas.


P
POLÍTICA- Os moradores da cidade e donos de engenho mantinham políticas diferençadas em relação à Portugal. De um lado, diziam que estavam ao lado dos portugueses, e às escondidas, negociavam suas mercadorias com os quilombolas em condições vantajosas. Muitos proprietários de engenho tinham posses no quilombo, num acordo feito com os quilombolas. Outros forneciam informações sobre o planejamento das ações portuguesas, em troca de uma política de boa vizinhança com o quilombo.


Q
QUILOMBO- Com cerca de 30 mil pessoas, Palmares se tornou o maior quilombo das Américas, no século XVII. Além dos escravos fugidos, era integrado por europeus que haviam sido expulsos de Recife, pequenos sesmeiros, mamelucos, indios, brancos pobres e todos os excluídos da sociedade colonial. Tinha 10 povoações, cada uma com um chefe ou governador. Havia leis regulando o comportamento dos palmarinos. O quilombo foi formado por escravos que fugiram dos engenhos em 1601. Seus dois chefes históricos foram Ganga-Zumba e Zumbi.


R
REVISÃO - Novos estudos tentam rever a saga de Palmares sob novos enfoques. Entre estes pesquisadores, se encontram os historiadores Flávio Gomes e João José Reis. Reis diz que Ganga-Zumba foi diminuído em função de uma historiografia do heroísmo, referindo-se ao fato de ter sido necessária a criação do herói Zumbi. Gomes acha que as pesquisas que existem hoje sobre Palmares são limitadas na perspectiva de análise. O acordo feito por Ganga-Zumba, segundo ele, foi feito em outros lugares da América e deu certo até hoje, com quilombolas mantendo sua identidade própria.


S
SUBUPIRA- Se Macaco era capital do reino negro palmarino, Subupira, num dos mais elevados da serra da Barriga era a cidadã de formação militar deles. Nesta cidade, foram instaladas olarias, oficinas de ferreiro, e de outros artefatos de guerra. Ali, também, segundo os historiadores, eram adestrados os futuros guerreiros palmarinos. Acredita-se que Subupira teve seu apogeu no período no qual Zumbi se tornou Grande Chefe ou Rei de Palmares, pois, ao contrário de Ganga-Zumba, resolveu enfrentar as tropas portuguesas sem desmobilizar o quilombo.

T
TERÇO DOS HENRIQUES - Milícia de escravos criada pelo negro Henrique Dias que ajudou a expulsar os holandeses em Pernambuco. Após a saída dos holandeses, a maioria só ganhou a alforria depois que se rebelaram contra a demora dos portugueses em cumprir o trato que fizera com eles. Em diversas expedições, o Terço dos Henriques lutou na destruição dos Palmares, sob o comando português. Eles, os escravos alforriados do Terço dos Henriques, inclusive, faziam parte do contingente reunido pelo bandeirante Domingos Jorge Velho, que destruiu Palmares em 1694.


U

UNIÃO DOS PALMARES - Nome hoje de um município de Alagoas, na serra da Barriga. No século XVII, União dos Palmares era a capital de Macaco. Lá, em 1995, as autoridades federais assinaram decreto tornado o 20 de novembro era o Dia Nacional da Consciência Negra.


V
VELHO -Domingos Jorge Velho foi o líder da expedição de cerca de seis mil homens que destruiu o quilombo de Palmares em 1695. Segundo os historiadores, o bandeirante era ladrão de gado, degolador de índios e negros, e vivia extorquindo as autoridades quando era usado- ele e seus homens - como uma espécie de força policial colonial. Entrou na história justamente por causa de sua participação na destruição de Palmares.


X
XENON - Editora que lançou o livro "Memorial de Palmares", do historiador Ivan Alves Filho, em 1988.


Z
ZUMBI - O maior líder do Quilombo dos Palmares, que acabou se tornando também a maior referência de heroísmo negro brasileiro. Teria nascido em Palmares, em 1655. Foi capturado bebê por uma expedição portuguesa, que o entregou a um padre que o criou e educou-o até os 15 anos, quando fugiu para de volta a Palmares. Hoje, esta versão, de autoria de Décio de Freitas, vem sendo contestada por historiadores, porque Freitas não apresentou documentos sobre a infância/juventude do grande líder palmarino. As autoridades portuguesas viam nele em Zumbi mais qualificado e aguerrido líder das cidades quilombolas palmarinas. Dezenas de documentos o citam, numa priova que foi fundamental para preservação de Palmares. Num deles, o Rei de Portugal, pede que ele inicie conversações de paz com o governo pernambucano. Teria ficado coxo depois de ferido por uma bala durante o combate com a expedição de Lopes Trovão. Parece que tinha três mulheres ou mais, e cinco filhos. Antes de assumir o poder dos Palmares, ele, aos 23 anos, comandava as forças armadas de Palmares e governava uma das povoações. Nunca conciliou com os portugueses. Foi mortalmente ferido por um dos seus homens de confiança, e depois, morto e degolado pelas tropas portuguesas. A população recifense nunca acreditou que os portugueses tivesse matado Zumbi porque achava que ele era imortal. Se tornou no maior mito negro brasileiro de todos os tempos. Em sua homenagem, existem monumentos no Rio de Janeiro, Caxias, Volta Redonda e Búzios, e em outras cidades.

ZUMBI, ETERNO II

A testa é larga, o nariz achatado e os lábios são grossos. A boca tem curvas abertas, talvez sensuais. Além disso, vejam as fitinhas, que embelezam o busto...tem as cores da unidade africana.

E a coroa de flores envolta em seu pescoço...talvez fosse um substituto para a coroa de louros que os heróis romanos ostentavam na cabeça após ganhar batalhas sangrentas.

Neste Zumbi de Padre Miguel – zona oeste do Rio de Janeiro, maior concentração da população afrodescendente do município - havia uma intenção estética deliberada dos caras que puxaram a edificação do monumento.

Ou seja: prestar uma homenagem solene, oficial, com um busto.

Em outras palavras, queriam reconhecimento oficial ao papel de Zumbi na história brasileira. Queriam por conseguinte igualá-lo aos heróis oficiais, feito, em 1995, por FHC.

Esse Zumbi me encantou, pois, ele não ocupava posição de destaque no território onde nasceu, mas fora fincado no meio do povão: na extinta feira do Ponto Chic, que acabou, me disseram.
Foto de Ricardo Braga.

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