2 anos

de sucesso no mundo do samba

AlaBaianasBaianasRodopioComponentes mais jovens, revezamento entre escolas e cursos são armas para preservar a ala-mãe, encolhida pelo avanço da idade e a conversão religiosa.

MAIÁ MENEZES

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No rodopiar de Lindalva Ribeiro da Silva, de 78 anos, a vida dança num ritmo atemporal. São 40 anos num mítico cenário de saias rodadas, sacrifícios e folguedos juvenis, na verde e branco da Serrinha. A dor nas costas some, o tempo não pesa.

- É como voar. Quando começo a rodar vou embora toda faceira- conta a imperiana de fé, que, em nome da alegria e da solidariedade, é baiana também em escolas do Grupo de Acesso.

É um recurso. Para alcançar o número mínimo na ala(40, e 70, no grupo especial) escolas apelam ao empréstimo de baianas. Algumas saem até três agremiações numa única noite. E multiplicam por três os 700 metros de Sapucaí por onde evoluem. São as chamadas”baianas-paraqueda”.

O peso da fantasia, a fragilidade da idade e a conversão religiosa amplificaram a dificuldade de renovação desse pelotão de senhoras, cuja oficialização como ala obrigatória nas escolas completa, no próximo dia 24, 80 anos. Foi feita por decreto do então prefeito Pedro Ernesto.

- Conheço algumas que não podem mais desfilar por causa da religião. O que eu acho é que se Deus deixou fazer o carnaval, o homem tem que usar isso- diz Lindalva.

BaianasBeijaFlorA Acadêmicos da Rocinha, no Grupo de Acesso, enfrentou um pequeno êxodo e decidiu reagir: fez workshops e aceitou com tranquilidade a divisão de suas baianas com outras escolas. Regina Safra, presidente da ala de lá, reforça que muitas trocaram o hábito carnavalesco pelo monástica vida evangélica.

- Algumas igrejas não permitem que elas saiam em lugar algum da escola. Muito menos na ala das baianas. Existe uma visão preconceituosa às vezes. Nem tudo é candomblé - diz Regina, que avisa: este ano sai com 50 baianas, dez a mais que o mínimo estipulado pelas regras momescas.

O decreto de 1933 homenageava as tias baianas, cujas casas eram berço dos afoxés e dos jongos, elementos da pré-história do samba. Mulheres que guardaram e remeteram para a posterioridade parte da cultura africana.

A avaliação do historiador Luiz Antonio Simas indica que a sedução religiosa ajudou a desidratar as alas de baianas. Para ele, o discurso neopentecostal tem nos símbolos que remetem a religiões afrobrasileiras um contraponto:

- No grupo de Acesso, onde a dependência das escolas a integrantes de dentro das comunidades é maior, as agremiações perdem pontos por causa da falta de baianas. “É justamente nos locais em que o fenômeno da conversão é expressivo, onde há forte penetração do pentecostalismo. A religião funciona fazendo um contraponto, negando qualquer referência afrobrasileira”.

Luiz Fernando da Silva, ou Luizinho, que comanda as baianas da Beija-Flor, conta já ter testemunhado a desistência de duas de seu grupo, por questões religiosas. Sobre a questão da idade avançada, ele resolve com uma “fila de espera”.

- Temos baianas de stand by , para caso de algumas, no desfile, passarem mal – conta Luizinho, que brinca com o desafio de dar voz de comando a uma tropa anciã. – Algumas desfilam em outras escolas porque querem. Eu deixo. Às vezes, elas são igual criança. São turronas. E me dizem: “Não me venha chamar atenção, eu troquei suas fraldas”.

Agora rara, e mesmo assim exclusivamente na função de comando, a presença masculina entre as baianas era usual nos anos 1940. Funcionavam como segurança das escolas, com navalhas por debaixo das saias.

Todo o amor, pela escola e pelo carnaval, que transforma senhoras de saúde muitas vezes frágil em fiéis e animadíssimas escudeiras dos desfiles não deveria tirar de cena a preocupação com o básico: o futuro. Ex-presidente e fundador da Associação de baianas do estado, Robson Magalhães Lourenço conta já ter apresentado proposta às escolas para criação de um centro de formação de(novas) baianas.

- Não existe renovação. Muitas deixam de ser baianas por problema familiar, por idade, por problema de saúde. Não há qualquer tratamento especial para a terceira idade, não existe banheiro adequado- reclama.

As escolas também estão optando por jovens baianas, caso da Beija-Flor e da Portela, por exemplo.

- Muitas optam pelas mais novas, porque as mais velhas já não tem o equilíbrio. E eles querem vê-las rodopiando, fazendo coreografias- diz Robson.

- Em nome disso, muitas delas não querem mais as idosas em seus desfiles. Eu considero que essa coisa de coreografia foge ao espírito da ala, que é matricial das escolas – analisa a pesquisadora Raquel Valença, para quem o samba “ é uma forma avançada de religião”.

Só essa conexão quase mística explica, para ela, a força para carregar quase 50 quilos de fantasia.

Aos 82 anos, Nôemia Lara Bastos, ou Tia Noêmia, é uma das mais ortodoxas e reclama que as mais novas desobedecem mais, querem tirar o chapéu. Ela chama as mais velhas de “meninas”. A disciplina é importante porque a ala conta pontos nos quesitos fantasia e evolução.

- Esse ano a fantasia não está levinha, não. Mas vai dar para as meninas rodarem bem, mesmo com artrose- diz.

- Tem que ter ginga, que rodar na hora certa. Esse é o básico. Mas é preciso gostar, senão não aguenta. Afinal, baiana é a mãe da escola. E mãe de tudo- resume Jane Carla, presidente da ala de baianas da Portela.

FONTE: Revista O GLOBO, de 10.2.2013

História e memórias de baianas das escolas de samba