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de sucesso no mundo do samba

CidadedoSambaÀ medida que a aldeã cidade do Rio de Janeiro foi conhecendo o progresso, passamos a trazer o carnaval europeu da Renascença, para substituir o entrudo1. Assim, em 1840, uma mulher italiana promoveu o primeiro baile carnavalesco no Hotel Itália.

Em 1846, a artista Clara Delmastro monta, no teatro São Januário, um grandioso Baile de máscaras. Também em 1846 chega ao Rio de Janeiro a Polca, que logo se transformou numa coqueluche dos bailes,que se multiplicavam.

Em 1847-48, um português chamado José Nogueira de Azevedo Paredes saiu à rua, numa segunda-feira de carnaval, de calção, suspensório e um imenso bigode portando um bumbo conhecido em certas localidades de Portugal como “Zé Pereira”. Estava criado o “Zé Pereira”, que logo formou grupos de foliões a desfilarem, sob pancadas nos instrumentos, espalhados pela cidade.

Em 1870 a confraria de Jacinto Heller, no Teatro Fênix Dramático, apresentou o espetáculo “Zé Pereira Carnavalesco”, no qual Frnacisco Correa Vasques cantava a parodia da marcha francesa Les Pompiers de Naterro com os versos a melodia:

“E viva o Zé Pereira,

Viva o Zé Pereira,

Viva o Zé Pereira,

Que a ninguém faz mal...”

O “Zé Pereira” é o legítimo percussor dos Blocos Carnavalescos.

ZéPereiraEm 1855, alguns intelectuais, tendo à frente José de Alencar, organizaram o “Congresso das Sumidades Carnavalescas” e promoveram uma passeata carnavalesca, com carros alegóricos, mascarados, foliões etc. Estava lançada a semente para a organização das chamadas Grandes Sociedades, Clubes que além das festas, nas sedes, promoviam desfiles de carros alegóricos. Nesse ano foi fundado os Tenentes do Diabo que saíram pela primeira vez à rua sob a forma de préstitos, em 1867. Ainda em 1867, foi fundado os “Democráticos” e em 1869, os “Fenianos”. As “Grandes Sociedades” logo se tornaram, com seus carros luxuosos, atrações do carnaval. Era a elite participando do carnaval.

As camadas mais “baixas” da sociedade também se organizaram. Os negros que jogavam o entrudo, a partir de 1870, trazem para rua as congadas2 e cocumbis3, sob a forma de “cordões carnavalescos”. Os Cordões se diversificam em outras formas, como os Cordões dos Velhos, levando enormes máscaras de papelão, num caminhar dos idosos, etc. Outros levavam à frente pessoas fantasiadas de índios, soprando chifres de bois e com penas pelo corpo. Nos cordões logo se infiltraram os valentões do Zé Pereira e capoeiras. Com o passar do tempo os Cordões se tornaram violentos. Em 1911 eles praticamente desapareceram do carnaval carioca e foram substituídos pelos Blocos Carnavalescos. 64

Mello Moraes Filho diz que: “até 1877 a fisionomia do carnaval era mais expansiva, mais popular. Todos os teatros davam bailes, as ruas e praças decoravam-se com amplitude e profusão; carros de mascarados percorriam as ruas, etc”. Então segundo Mello Moraes Filho, a partir dessa data o carnaval se concentrou nas Grandes Sociedades. As pessoas passaram a ver os desfiles e deixaram de brincar. Os teatros ficaram vazios. E, conclui: “debaixo das rodas desses carros ficaram esmagados os arlequins, os polichinelos e outros tipos de rua que divertiam tanto”. O povo deixou de participar para assistir ao carnaval. Até esse tempo o carnaval era delimitado por classes: a elite se divertia na rua do Ouvidor e o pobre no Largo de São Domingos. O carnaval não era uma festa democrática.

Quando surgiu a Avenida Rio Branco, no início do século XX, essa artéria se tornou palco nobre do carnaval carioca com os desfiles das Grandes Sociedades, dos Ranchos Carnavalescos4, dos Corsos Carnavalescos5. Até esta altura o carnaval carioca era mantido economicamente pelas comunidades, residentes no centro da cidade, no perímetro Praça Mauá - Praça Quinze - Praça da República e pelos jornais patrocinadores. O Poder Público apenas cuidava da ordem.

Com a reforma arquitetônica do Prefeito Pereira Passos, no início do século XX, transformando a cidade do Rio de Janeiro numa megalópole parisiense, não tomando cuidados de preservação cultural, por isso o carnaval começou a enfraquecer.

CorsoCarnavalesco1As comunidades, que mantinham a exuberância da festa, foram expelidas para as periferias, desordenadamente, sem um estudo adequado. As comunidades formavam compacta, a identidade cultural de nossa cidade. No carnaval, a elite sustentava, economicamente as Grandes e Pequenas Sociedades e os Corsos, os pobres, o carnaval popular. Com os livros de ouro, a solidariedade de grupos e os jornais patrocinadores, o carnaval carioca acontecia espontaneamente.

De repente, sem quaisquer tipos de cuidados culturais, pulverizamos nossa Identidade Cultural: os ricos foram para zona sul e os pobres para os morros, subúrbios e bairros da zona norte, numa diáspora desordenada. Sem sustentação de ordem cultural e econômica, o exuberante carnaval, modelo refinado europeu, filho da cidade velha, começou a enfraquecer.

Quando Getúlio Vargas assumiu o governo na década de 30 encontrou este quadro caótico do carnaval carioca. Percebendo que a conduta até então tomada pelos nossos governantes de perseguir a cultural popular não era adequada, Vargas resolveu mudar de atitude passando a se aproximar da massa, usando o proselitismo, começando a tratar o carnaval politicamente.

Ante as pressões das Entidades Carnavalescas debilitadas economicamente, chamou-as e passou a liberar Verbas Oficiais subvenções para seus preparativos, e também, para as decorações de ruas, organizações de concursos etc, isto é, o Poder Público tornou-se “empresário” de um novo mercado que passou a existir oficialmente a Empresa Carnaval.

Isso se deu em 1935, quando foi oficializado o carnaval carioca. As Verbas Públicas pulverizadas nas pequenas e insuficientes subvenções não davam para os sustentos das ricas Grandes Sociedades e Pequenas Sociedades e Ranchos Carnavalescos. 65

A Cartilha das Escolas de Samba – Hiram da Costa Araújo.


A conduta amadorística e política do Poder Público propiciaram o crescimento de uma Indústria Subsidiária altamente predatória, que começou a enriquecer com o mercado do carnaval.

O mau negócio do carnaval oficial, administrado amadoristicamente, tornou-se um tormento para os Governos. Sem um tratamento profissional, o carnaval carioca, modelo refinado europeu em desenvolvimento, entrou em franca decadência. O dinheiro do mercado do carnaval ia todo para a Indústria Subsidiária.

Um fenômeno chamado Escolas de Samba, nascido nas periferias, morros e subúrbios, começou a se destacar como exceção desse quadro caótico, mantidos economicamente pelos Livros de Ouro6 e Solidariedade de Grupos7 ainda existentes nos morros e subúrbios. As Escolas de Samba puderam resistir às minguadas subvenções e cresceram. Graças as suas formações negras, as Escolas de Samba usaram o processo de antropofagia, sincretizando as formas artísticas das outras Entidades Carnavalescas (Grandes Sociedades, Ranchos etc).

Em 1932, as Escolas de Samba iniciaram seus desfiles na modesta Praça Onze. Em 1952 foram para o “Tablado” da Avenida Presidente Vargas e completaram suas espinhas dorsais (alas fantasiadas, sambas de enredo, alegorias). Identificadas como manifestações carnavalescas próprias puderam se diferenciar dos Blocos Carnavalescos. Preparadas e amadurecidas, as Escolas de Samba assumiram o palco nobre do carnaval, a Avenida Rio Branco, em 1957 subestimando as decadentes Grandes Sociedades e Ranchos. Seus crescimentos foram arrasadores. Em 1961 foram descobertas por nossos intelectuais que passaram a discutir o fenômeno pelos jornais. Ausentes da organização do carnaval os nossos intelectuais carnavalescos, porém, apenas criticaram a evolução das Escolas de Samba.

Em 1962 foi organizado o I Congresso Nacional do Samba de onde foram retiradas a “Carta do Samba”, assinada pelo folclorista e escritor Edson Carneiro e o “Dia Nacional do Samba”, no encerramento do Congresso, no dia 02 de dezembro, tornado lei pelo então deputado estadual Frota Aguiar. Nesse ano ocorreu o último desfile na Avenida Rio Branco, mas ainda não houve o amadurecimento cultural suficiente para fazer nascer o Sambódromo, que por sua vez veio a ser concretizado 22 anos depois. Por uma visão deformada do carnaval carioca, consequência da falta de uma “intelligentsia” estudando a festa, perdeu 22 anos de libertação econômica, mergulhando na maior ventosa da economia do carnaval carioca: o monta e desmonta das arquibancadas tubulares.

Nos anos 60 as Escolas de Samba foram “descobertas” pela classe média, que passou a freqüentar seus ensaios. O samba tornou-se moda e entrou na zona sul. Em 1963 a Indústria Cultural do Carnaval carioca encontrou finalmente seu estilo concentrando o desfile das Escolas de Samba num trecho em linha reta, ladeado por acomodações onde o público passou a se acomodar. Com a cobrança de ingresso fechou-se o ciclo de desenvolvimento da EMPRESA CARNAVAL. Com a mudança do olhar, de cima para baixo, dos espectadores nas novas arquibancadas tubulares da Candelária criou-se o visual e as artes plásticas se aperfeiçoaram.

Os primitivos carros alegóricos pequenos e quadrados, de madeira, sob-rodas de bilhas e bonecos esculpidos com papel carne-seca, coloridos com pó de xadrez evoluíram para carros armados com longarinas de ferro e movimentados por rodas de borracha. Surgiram os tripés, depois os carros montados em chassis de ônibus e caminhões com novos materiais a 66

complementá-los: o isopor, a lã de vidro, o brocal, a purpurina. Cenografias foram criadas com teatralizações em cima dos carros alegóricos, verdadeiros edifícios de três andares, cheios de movimentos e efeitos especiais.

História e memórias de baianas das escolas de samba