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Em 11 de outubro passado, Cartola,  o Agenor de Oliveira, fundador da GRES Mangueira, faria 104 anos, se estivesse vivo. Ele não foi um símbolo apenas da escola, mas um nome que entrou para a História da MPB (Música Popular Brasileira) pela suas composições refinadas e estilo conturbando de viver.
 
CartolasAo me deter sobre ele e sua obra magnífica, encontrei  estes três mistérios:

MISTÉRIO  1
Ninguém ainda conseguiu decifrar a idolatria por Cartola mantida por umas três gerações de intelectuais brasileiros. De Vinicius de Moraes a Sergio Cabral (pai), existe uma igreja, onde, os “sacerdotes” e seus coroinhas rezam missa continuamente em louvor a São Cartola.

Não creio que seja a obra do sambista. Acredito que seja mais a complexidade humana de Cartola, um favelado que enfrenta com galhardia  as vicissitudes da vida...além do mais, ele, Cartola, representa um tipo comum na vida brasileira, mas extrema bondade, parece não ter qualquer vestígio de rancor/ressentimento pela dura vida lá morro.

Com base nesta idolatria, estes intelectuais divulgaram a obra de Cartola, transformaram “As rosas não falam” num clássico. Por tabela, as outras obras do compositor caíram no gostar/querer de todos, virou mito, obra gravada e regravada sempre. Com encanto.

É claro que se formos confrontar a obra dele com a de alguns sambistas de sua geração...ele, Cartola, perde para...Ataulfo Alves, Wilson Batista, Geraldo Pereira...Estes caras têm obras consistentes, mas não superam o mito Cartola. Não tem como.

Por conseguinte, são encobertos por ele, Cartola.  Assim, Cartola passa para história do samba como uma figura que agrada a todos...mas aí, acho que tem um mistério, ou seja,  a gente não sabe se a obra ou a (rica) trajetória do afrodescendente Cartola balizam esta fama que vigora no Brasil.

CartolaedonaZicaQuando a gente lê sua rica biografia, surgem dúvidas, surgem questões... perguntamos: como ele superou aquele mar de adversidade? Que força era aquela que possuía para renascer sempre? O sol nascerá mais uma vez?  

Não teria sido isto que encantou os intelectuais de classe média que passaram a fazer uma igrejinha de louvor a ele...e a igrejinha se expandiu  e virou templos imensos pelo Brasil e pelo  mundo louvando São Cartola.

MISTÉRIO 2

Nos anos 1940, Cartola, que nos anos 1930, tinha se tornado um dos maiores compositores de samba ao lado de Paulo da Portela, desaparece do morro da Mangueira, da escola, que fundara, que tinha se originado do “Bloco dos Arengueiros”,  criado por ele, Carlos Cachaça e outros bambas da favela.

Alguns disseram no morro que ele havia morrido, mas não encontravam o corpo...onde estaria Cartola? Pouco se sabe deste período cartoliano.  

Existem apenas suposições segundo as quais teria brigado com sambistas da Mangueira e resolvera abandonar o morro para não sofrer retaliações.

Outra versão dizia que teria contraído uma doença grave e, por isso,  sumira do mundo artístico mangueirense. Especulava-se que teria sido a meningite. Só especulações.

Nova  versão falava que fugira do morro após a morte de sua primeira  mulher Deolinda, que o deixara abatidíssimo.  Este segundo mistério teve uma solução:  Cartola só foi reencontrado, em 1956, pelo jornalista e escritor Sérgio Porto, conhecido Stanislaw Ponte Preta, trabalhando como lavador de carros em num de Ipanema.

Graças a Porto teria voltado a compor e cantar, pois, foi levado a programas de rádio. Essa redescoberta fez com que ele se tornasse um ícone sendo gravado por diversos cantores, se tornando num símbolo de grande presença e admiração pelos novos sambistas e intérpretes da MPB.

Mas porque Cartola desapareceu por quase duas décadas? Ninguém responde a esta pergunta na historiografia da MPB.

MISTÉRIO 3

No início dos anos 1960, Cartola se tornou zelador  da Associação das Escolas de Samba do Rio de Janeiro, na época,  localizada, num casarão, no Centro do Rio de Janeiro.

O local se tornou  ponto de encontro de sambistas da mais fina raiz. Além de rodas de samba, Zica, a segunda mulher de Cartola, considerada uma exímia cozinheira,  passou a servir sopa aos participantes. A roda de samba de Cartola e Zica cresceu pela cidade. Muitos comentários.

Cartola,IsmaelSilvaeManoDéciodaViolaEstimulados por amigos, o casal resolveu transferir a roda de samba para um sobrado, na Rua da Carioca, em 1963. A iniciativa  foi apoiada por mangueirenses históricos. Assim, nascia o mitológico bar “Zicartola”, na Rua da Carioca. Desse modo, o “Zicartola” se tornou um marco  na história da MPB.

Passaram por aquele local músicos da “Bossa Nova”, poetas do movimento concretista como Ferreira Gullar, Hermínio Bello de Carvalho, Sérgio Cabral (pai), Nelson Cavaquinho, Elizeth Cardoso, Nara Leão, Zé Keti, Elton Medeiros e o garotão Paulinho da Viola, nos seus 19 anos.

Neste bar antológico, Cartola e Elton Medeiros teriam composto outro clássico do mundo do samba, “ O sol nascerá”.

O bar, então, inaugurava uma nova modalidade de casa-show-samba, ao lado da famosa Praça Tiradentes, resgatando a grande época de desfrute da cultura afrocarioca da belle époque no início do século XX.

No entanto, parece que Zica e Cartola tiveram problemas administrativos, e depois de dois anos de funcionamento, o bar fechou. Seria somente por problemas administrativos? Tenho minhas dúvidas.

E um mistério.

 

 


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